Papo Conviva com Thiago Mundano

Papo Conviva com Thiago Mundano

Movimento Conviva

Arte que enxerga e valoriza a reciclagem informal

Foto: Thiago Mundano

Dar visibilidade aos responsáveis por coletar materiais das ruas e direcioná-los à reciclagem. Foi com esse objetivo que nasceu o Pimp My Carroça, movimento criado pelo grafiteiro e artivista Thiago Mundano.

Caso você nunca tenha ouvido falar sobre o projeto do Mundano, direcionado aos catadores de materiais recicláveis, saiba que ele pode estar no TED Global. O Mundano está participando da seletiva para novos talentos. Imagina o Brasil representado na conferência internacional? Você pode ajudar e votar aqui, aliás. 🙂

E para não esquecer o essencial: o Pimp My Carroça tira os carroceiros da invisibilidade e os inclui por meio da arte. Pintar carros de mão e instalar retrovisores e outros itens de segurança é o que Mundano tem feito desde 2007. Sua ideia mobilizou colaboradores e, em São Paulo e no Rio de Janeiro, em junho, foram “pimpadas” muito mais do que as 50 carroças previstas a princípio. Ponto para a força do crowdsourcing e da arte!

>> Ruas, arte e convivência

Sem mais delongas. Nós conversamos com o Mundano, então a palavra do papo Conviva é dele:

Você poderia resumir o momento em que sentiu vontade de colorir as carroças e dedicar sua atenção aos catadores?

Eu já fazia trabalhos sociais e o meu grafite estava focado em frases, interações com a cidade para fazer as pessoas pensarem. Um dia, conversei com catadores e moradores de rua. Foi natural… eu estava pintando uma ponte, e pintei também a carroça de um catador. Ele ficou muito feliz, e aquilo mexeu com a auto-estima dele. Pirei em uma conversa longa com ele. Aí, pintei mais duas carroças, depois mais uma, e não parei mais. É uma troca muito boa: eu dei a minha arte, dei a voz a ele, e dessa forma foi muito natural. Foi em 2007 que eu comecei a pintar carroças, e aprendo cada vez mais sobre o jeito de os catadores usarem a cidade – e eles ficaram a vontade com o projeto. Dessa forma, o que eu fazia sozinho virou o Pimp My Carroça  e, com a colaboração, mostramos a eles o reconhecimento e as coisas que eles podem agregar para nós.

Nos conte um pouco sobre o conceito que originou o Pimp my Carroça.

Foi a coletividade, a vontade de mudança. Há tempos atrás, não seria possível desenvolver um projeto tão ousado, tão grande. E, hoje, para o projeto acontecer, tivemos um financiamento coletivo, pelo Catarse. É um projeto feito por pessoas. Vemos histórias de empresas que gastam 100 mil em uma iniciativa e 50 milhões para divulgar o que fizeram. Está tudo muito errado, e estamos no contexto de ir para a rua – de fazer mais, quando se faz pouco. Queremos algo novo, queremos mudança.  Queremos crescer e evoluir a ideia, para ser uma cooperativa.  A gente não é a favor da carroça, porque é uma tração humana. Com toda a tecnologia que temos, isso não deveria mais existir.

Como você vê a atuação do Pimp no contexto de grandes metrópoles, como São Paulo e Rio de Janeiro?

São as cidades que mais produzem resíduos no Brasil. Aqui vemos muitos casos de corrupção, erros na limpeza urbana e as pessoas com pensamento individual, esquecendo o tem ao seu redor. Quanto maior a cidade, mais o catador fica invisível. E os catadores surgem do desemprego, sendo que tem uma oferta abundante nas ruas, oportunidades para trabalhar.
Eu comecei em SP, mas cada cidade tem um controle específico da reciclagem, algumas mais avançadas, outras menos. Quero estudar mesmo, transformar em livro e fazer um documentário maior nos próximos anos.

 

Você está participando da seletiva do TED Global. Se for selecionado, sobre o que falará?

A história com o TED começou em 2011, quando falei sobre os catadores, antes do Pimp my Carroça, no TEDxESPM, focando em comunicação nas ruas. Eu era anônimo até então. Depois da palestra, comecei a assumir uma postura de “dar a cara a tapa”. Quando começou a busca de talentos para o TED Global, as pessoas me inscreveram e acabei participando. A seletiva foi uma semana após o Pimp My Carroça em SP. Eu estava com a cabeça fresca e quis falar de um negócio que estava acontecendo – foi o 2º maior financiamento coletivo do Brasil até então. No vídeo, fui falar para inspirar e espalhar o projeto pelo mundo.

Seria muito legal ir, falar sobre pessoas e a situação de rua, e como as pessoas estão invisíveis e a arte, então, mostra o poder dela. Participando, eu iria propor pensarmos sobre os catadores em escala global, sobre a história deles no mundo, sobre o fervor de economia verde – quem atua há 50, 100 anos reciclando são eles, e no mundo todo há catadores em situações similares.

Eu queria as estimular pessoas a criarem iniciativas locais e aumentar o poder de transformação. Que a conferência seja um marco de mudança e valorização.

O que mais te marcou desde que começou o seu trabalho com os catadores?

Ver que, depois da arte, eles se motivaram a trabalhar mais. Eles dizem: “Depois que você pintou minha carroça, ganhei mais dinheiro, as pessoas se aproximam mais, os carros buzinam e querem tirar foto comigo”. A primeira vez que tive esse retorno me marcou muito, porque vi que era isso mesmo, e não desisti. Eles me estimulavam e era isso que eu queria. Deixei de fazer muita coisa para continuar e, enquanto eu tiver o estímulo, tirarei forças de onde for, pra continuar.

 

Foto de capa: http://migre.me/9WTDL.

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