Papo Conviva com Natália Garcia

Papo Conviva com Natália Garcia

Movimento Conviva

Cidades devem ser pensadas e moldadas para pessoas

 

Até o dia 9 de julho, quem for ao espaço Matilha Cultural, no centro de São Paulo, vai conhecer de perto ideias sobre como nossas cidades podem ser lugares mais agradáveis de se viver.

Imagem: reprodução. http://migre.me/9xI8B.

A exposição é do projeto “Cidades para pessoas”, da jornalista paulistana Natália Garcia, que em 2011 visitou sete cidades da Europa em busca de ideias de planejamento urbano para inspirar as cidades do Brasil a serem lugares ideais para o homem viver. Ainda este ano, Natália segue pelas nossas terras, dando continuidade ao projeto.

>> Vídeo: Palestra no TEDxJovem
>> 12 critérios para determinar um bom espaço público 

E nós conversamos com ela para entender um pouco de tudo – aprendizado, impressões e planos para o futuro. Confira o que ela nos contou:

 

  • Para criar o projeto, o urbanista Jahn Ghel te inspirou. E agora, cumprida a primeira fase da viagem na Europa, o que te inspira?

O Jan é formidável, pois ele foi o primeiro, junto com Jane Jacobs, a ir contra uma onda da escola do modernismo, que nasceu pensando no planejamento das cidades para contemplar os carros – e viramos reféns dele. Jan viu que planejamento tem que contemplar a escala humana, para nosso corpo ocupar, percorrer e enxergar a cidade.

Durante a viagem, em Londres, entrevistei professores da University College of London, que viram que o planejamento clássico de planejar não funciona nas cidades de países subdesenvolvidos, que tem um jeito informal de se formar. Quanto maior a desigualdade social, maior tende a ser a mancha urbana.

Por isso, hoje, o que me inspira, é olhar para a lógica da informalidade. Um exemplo são os catadores de lixo, que não estão no sistema formal de coleta, mas com sua lógica informal de trabalhar, amenizam um problema formal – o lixo. O que mais vou buscar agora são soluções que se apropriem dessa lógica informal.

Outra inspiração para mim são os movimentos cívicos, de engajamento, que se unem para promover melhorias em áreas públicas da cidade. Em Amsterdã, por exemplo, tem uma ponte de pedestres colaborativa, financiada por moradores de alguns bairros. Essa ponte foi lançada em uma bienal de arquitetura lá. Isso é só um exemplo de pessoas financiando algo público para a cidade ser mais o que elas querem.

 

  • Qual lugar mais marcou sua viagem? Por quê?

Copenhague marcou muito. A janela do meu quarto dava para o canal da cidade, e eu podia nadar no rio. Nadar ali, sabendo que o rio já foi muito poluído e foi limpo em um projeto de 15 anos – e hoje é um lugar para as pessoas ocuparem -, foi uma experiência muito louca, independente da cidade.

Londres, como cidade, me colocou os pés no chão, pois uma cidade com 8 milhões de habitantes tem problemas diversos e, ainda assim, é uma cidade que inventou seu jeito de ser incrível. Lá, você está sempre a 10 minutos de distância, de bicicleta, de um parque, pois eles são integrados; e as margens do rio Tâmisa são cheias de atrações para pessoas.

 

  • No seu blog, você já listou as 5 lições de Copenhague para as nossas cidades. Além do que foi dito, você acrescentaria algo que aprendeu ao longo do seu trecho europeu do projeto?

Há um tópico, citado no vídeo que criei com as lições, que é produzir indicadores – ou seja, aprender a ler as cidades. Isso está muito em voga no Brasil agora. O Programa Cidades Sustentáveis mapeou boas práticas pelo mundo – de energia, mobilidade, gestão do lixo etc. A proposta é pautar isso para os candidatos às próximas eleições. Eles assinam um termo e se comprometem a produzir, entre outras coisas, esses indicadores – como o total de quilômetros de corredores de ônibus na cidade versus a malha viária, por exemplo.

O programa possui 100 indicadores, e o político que assina se compromete a ficar o primeiro ano do mandato lendo a cidade. Ele para, diagnostica e age assertivamente. Esse planejamento é o que eu acrescentaria para melhorar essa questão, discorrida no vídeo.

 

  • No Brasil, você sente que as pessoas buscam cada vez mais mudanças nas cidades para viverem melhor?

As pessoas estão saturadas do jeito de viver nas cidades. É muito trânsito e tempo perdido no carro. Cada vez mais há disposição para se locomover de outro jeito, para melhorar a própria vida – e a vida comum a todos.

Uma pesquisa apontou, em 2011, que mais da metade das pessoas entrevistadas trocaria seu carro por um transporte público de qualidade. Isso é a percepção de que o carro não é a melhor resposta para qualquer pergunta.

A melhor cidade é a que tem mais opções e atende o que você precisa fazer. Se você quer ir de carro, transporte público ou de bike, ela te dá isso com qualidade. Vejo movimento muito grande no sentido de “cansei desse jeito de viver e estou disposto a mudar”. E os movimentos de engajamento cívico, como o Rios e Ruas, o Movimento Árvores Vivas, o Movimento Mão na Praça, o Movimento do Baixo Centro, que se propõem a investir em um bem comum, estão aí. As pessoas buscam jeitos novos de pensar.

 

  • Você, que diz no TEDXJovem ser “moldada” por São Paulo, viajou pelo mundo. Como você vê o seu molde hoje, depois de tantas experiências?

Saí do Brasil em busca do conceito de cidades para pessoas. Visitei lugares com exemplos muito distantes dos nossos, com população, desigualdade e mancha informal muito menor do que nos temos. O escritor Ítalo Calvino diz que, quando viajamos, visitamos lugares que são espelho sem negativo. E é muito isso: em Copenhague, você vê uma “não-Sao Paulo”. O que salta aos seus olhos é o que é diferente de você.

Com a viagem, entendi muito mais sobre quem eu sou, estando em lugares que são o que não sou.

 

Foto de capa: Natália Garcia. http://migre.me/9xIeA.

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