Papo Conviva com Lincoln Paiva

Papo Conviva com Lincoln Paiva

Movimento Conviva

Pessoas que fazem. É debaixo dessa máxima que está Lincoln Paiva, presidente da Green Mobility e do Instituto Mobilidade Verde, que se ocupa – o mundo agradece – em estudar e espalhar mensagens e ações que levem à mobilidade sustentável. Bom para nosso presente e nosso futuro.

Nós conversamos com o expert e saímos mais inteligentes do bate-papo. Faça o mesmo você também:

– Por que é preciso trabalhar a  mobilidade urbana envolvendo as secretarias de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Transportes? Como se dá essa conexão e quais são os seus benefícios?

A Mobilidade Urbana não é um fim em si mesmo,  o pensamento urbano moderno coloca a mobilidade como um meio para levar o desenvolvimento urbano e social de forma ecológica para a população, ou seja, com menor impacto ambiental  possível.

Não se pode pensar em Mobilidade Urbana apenas pelo viés dos sistemas de transportes e energia, a função da mobilidade urbana sustentável é o desenvolvimento local.

Muitas cidades no mundo  têm realizado trabalhos incríveis nesse sentido. Vamos pegar como exemplo a cidade de Medellin, na Colômbia, onde estive em abril com os gestores do departamento de desenvolvimento urbano e visitei diversos projetos em comunidades. Medellin,  alguns anos atrás, era uma cidade dominada pelos cartéis de drogas, uma cidade extremamente violenta com um dos menores índices de desenvolvimento humano do planeta. A prefeitura mudou essa realidade e a mobilidade teve um papel muito importante, pois permitiu que as pessoas tivessem maior acesso ao trabalho, educação e lazer. Quando o governo tem um projeto de ampliar o metrô, com dois anos de antecedência, o pessoal do desenvolvimento urbano visita a comunidade, desenvolve  escolas, centros de treinamentos para homens e mulheres – são eles que irão trabalhar tanto na construção, quanto na administração. Isso cria uma percepção de pertencimento, que não existe por aqui.

 

– Como você vê as questões de mobilidade urbana a curto prazo, em grandes cidades brasileiras como São Paulo? Podemos pensar em soluções imediatas?

Não existe solução imediata; não existe mágica em Mobilidade Urbana. É preciso  desenvolver um planejamento a longo prazo, rever as leis de Polos Geradores de Tráfego e criar um movimento para a redução da verticalização, além de restringir o uso do carro. Essas podem parecer medidas duras, mas será inevitável aplicá-las nos próximos anos.  São Paulo é uma das cidades mais verticalizadas do mundo – e o volume de apartamentos vazios é enorme. Além disso, especialistas dão conta de que 73% da cidade de SP está impermeabilizada, o que significa que  a água da chuva  não tem como penetrar o solo; ela escorre para os fundos de vales e aí vem as enchentes e os problemas que temos que enfrentar diariamente. A poluição gerada pelo excesso de veículos cria “microclimas” e ilhas de calor na cidade, gerando chuvas em excesso ou seca, e ainda provoca mudanças climáticas bruscas e zonas com alta concentração de ozônio, o que é muito prejudicial a saúde pública.

 

– Quando se fala em mobilidade sustentável, há muitas vertentes a serem abordadas. Quais delas ainda estão ausentes em planejamentos urbanos e melhorias propostas pelas cidades brasileiras?

Mobilidade Sustentável é entendida hoje como veículos mais eficientes e limpos. Como as cidades não se apropriaram do termo, a indústria automotiva usa isso de forma conceitual,  como um estilo de vida moderno ligado ao sucesso e ao status,  nos levando a crer que a solução para as cidades seria comprar carros mais verdes. Essa linha de raciocínio não está totalmente errada, mas é só parte do exercício. A visão de futuro das cidades pela indústria automotiva é turva em termos de urbanismo. São cidades tecnológicas ao estilo dos desenhos de ” Os Jetsons”, com o carro falando com o motorista – ele é amigo das pessoas, resolve os problemas cotidianos, passeia por prédios de vidros espelhados e ruas vazias.
A indústria precisa reconhecer que a função do carro é transportar as pessoas de forma mais eficiente, e isso significa que nem todas as pessoas serão proprietárias de automóveis no futuro e nem todas as pessoas poderão andar ao mesmo tempo com seus automóveis. O carro não é o vilão, mas também não tem ajudado em nada. Estão perdendo tempo e recursos pensando em cidades imaginárias que não serão reais.

 

– Quais são as características de uma cidade inteligente? Pode nos dar um exemplo da cidade perfeita – ou de um mix de várias, cada qual com sua “inteligência”, que formariam a cidade ideal?

Uma cidade inteligente é aquela que consegue planejar e criar  o seu futuro baseado em indicadores de qualidade que melhoram a vida das pessoas. Muitas cidades são perfeitas em alguns indicadores e imperfeitas em outros. Em relação a mobilidade, podemos verificar que cada cidade exitosa neste campo criou modelos bem particulares que deram certo para elas,  mas que  talvez não possa ser exportado para outras culturas. Porém, uma característica comum dessas cidades é o planejamento a longo prazo.

Estive em Freiburg, Alemanha, em 2010 e conversei com o Prefeito. Ele me contou que tudo que foi feito na cidade foi discutido antes com a população e eles construíram aquela visão de cidade que eles queriam. A cidade de Freiburg possui pouco mais de 400 mil habitantes e ela é considerada uma das cidades mais sustentáveis do mundo.

Lá, a distribuição modal é a seguinte: 28% de deslocamentos de bicicleta, 18% a pé, 29% automóveis , 25% transportes públicos. Ou seja, 46% dos deslocamentos são realizados por transportes não motorizados – isso faz toda a diferença na cidade. A restrição ao uso do automóvel é grande por lá: no centro expandido é proibida a circulação deles. Cada modal de transporte tem uma função baseada na sua capacidade e na demanda de mobilidade.

O uso de inteligência e do gerenciamento da mobilidade permite que a cidade faça bons investimentos em projetos que melhoram a vida das pessoas. Paris, por exemplo, permite que você possa optar por diversos modais… Estive na cidade para rever o projeto Velib, que estava completando 5 anos. Percebi uma cidade totalmente transformada: há cinco anos, era uma cidade maravilhosa, mas caótica, mergulhada em congestionamentos, e o sistema de bicicletas não estava bom. Agora é possível acessar toda a cidade por bicicleta – há muitas ciclovias e ciclofaixas, e uma convivência muito tranquila com motoristas de ônibus e automóveis.

Em Paris, a faixa do ônibus é compartilhada com os ciclistas… Aliás, esse modelo acabou sendo exportado para várias outras cidades. Miami está testando agora. Utrecht, na Holanda, está investindo 80 milhões de euros em infraestrutura de bicicletas, pois 40% de todos os deslocamentos são realizados por bicicletas e não há mais  espaço na cidade para guardar bicicletas.

No Brasil, algumas cidades poderiam liderar o movimento de bicicletas e ser exemplo para as outras com poucos recursos. Belém é uma dessas cidades ideais para a bicicleta, porque é plana e a chuva sempre cai no mesmo horário todos os dias. Não fiz a contagem de bicicletas lá, mas creio que se isso fosse feito chegaríamos a algo bem  próximo de 15% a 25%  de deslocamentos por esse modal. Falei para o Prefeito que ele deveria estimular o crescimento e investir na infraestrutura e desenvolver uma economia em torno desse modal e ainda  se apropriar do termo “Capital das Bicicletas”; no entanto,  a bicicleta no Brasil ainda é relacionada a transporte de pobre, de cidade atrasada… As cidades brasileiras não sabem que esse número é invejado pelas maiores capitais do mundo. Quem dera se Paris tivesse esse índice, a cidade  tem cerca de 8% de deslocamentos de bicicleta com uma infraestrutura de 20.000 bicicletas públicas… São Paulo tem menos de 1% e poderá chegar a 5 a 8% nos próximos 10 anos se o governo investir na infraestrutura. Quem sabe o Movimento Conviva possa dar uma boa contribuição para essas cidades, não é mesmo?

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