Carros de mão, ruas, arte e convivência

Carros de mão, ruas, arte e convivência

Movimento Conviva

Pouca gente sabe, mas os carros de mão são considerados veículos de carga e têm os mesmos direitos de trafegar pelo espaço público que os demais. Mais que isso, graças a eles, hoje em dia os catadores não só transportam carga, mas desempenham uma função muito importante: a coleta de materiais recicláveis. Alguns chegam a carregar diariamente meia tonelada de materiais que serão reutilizados reduzindo seu impacto no meio ambiente.

Em contrapartida, por ser um veículo de propulsão humana destinado ao transporte de cargas sua velocidade e mobilidade é bastante reduzida, o que incomoda e até indigna muitos condutores nas ruas. Então vamos lá à informação e a um exemplo bem interessante de como conviver, compartilhar e respeitar o próximo, independente do seu modal?

Para começar, vamos conhecer as definições segundo o Código Brasileiro de Trânsito, artigo 96, inciso II:

–   Carro de mão: veículo de propulsão humana utilizado no transporte de pequenas cargas.

–   Carroça: veículo de tração animal destinado ao transporte de carga.

Primeira lição, apesar de serem popularmente chamados de carroças e seus condutores carroceiros, o termo correto segundo o CBT é carros de mão.

Uma curiosidade e mais um motivo para se respeitar o carro de mão como modal de transporte tão legítimo como os demais: segundo pesquisadores, ele foi inventado pelos chineses, por volta de200 a.c., e era utilizado tanto para o transporte de carga quanto de passageiros. Ou seja, ele existe muito tempo antes dos meios de transporte que dominam o espaço público hoje, é o meio de subsistência de milhares de brasileiros e se o tempo e o Código Brasileiro de Trânsito o reconhecem como veículo, Cidadãos com C maiúsculo também o devem fazer, não? 🙂

Classificados na mesma categoria que as bicicletas por serem veículos de tração à propulsão humana, os carros de mão devem circular pelo bordo direito da pista ou no centro da faixa mais à direita e têm sua circulação proibida nas vias de trânsito rápido e sobre as calçadas das vias urbanas. Eles também devem trafegar no sentido do fluxo nas vias urbanas e têm prioridade sobre os veículos motorizados.

Agora que já sabemos um pouco mais sobre os carros de mão, vamos a um exemplo de convivência, respeito, humanidade e cidadania através da arte.

Pimp My Carroça

Desenvolvido pelo grafiteiro Thiago Mundano (@mundano_sp), o projeto “Pimp My Carroça” tem o objetivo de tirar os carroceiros da invisibilidade, além de instalar itens de segurança como retrovisores, faixas reflexivas, cordas e luvas, aumentando a segurança e as condições de trabalho destes guerreiros das ruas.

Tudo começou em 2007, quando o artista estava pintando um muro e teve a atenção despertada por um catador que trafegava pela pista da direita “atrapalhando” o trânsito. A cena despertou a curiosidade de Mundano que foi pesquisar a atividade e resolveu colocar a mão na massa para dar visibilidade e dignidade a estes trabalhadores através do seu ofício: a arte. Em dois anos, o grafiteiro pintou mais de 150 carros de mão em diversas cidades do Brasil e do mundo.

Depois que puxou um carro de mão para “saber as dificuldades”, Mundano começou a formatar o projeto pensando além do visual, mas também em itens de segurança e no catador.

Previsto para ser realizado no começo de junho, o “Pimp My Carroça” terá diversos pontos de recepção de catadores, os chamados “pit stops”. O carro de mão será recebido e passará por uma reforma na estrutura seguida pela instalação de itens de segurança como retrovisores, fitas reflexivas, lanternas e cordas. Depois é a vez da personalização feita por dezenas de grafiteiros e artistas plásticos, sempre com uma frase de incentivo e reconhecimento da atividade. Paralelamente o catador também será atendido. Ganhará uma camiseta do projeto, refeição e será atendido por um clínico geral, um oftalmologista e um especialista em dependência química e receberá seu “novo possante”.

Ao final do dia, os carros prontos para as ruas e os motores humanos, no caso, os catadores abastecidos com água, alimento, cor, alegria e reconhecimento se reunirão com todos os voluntários e apoiadores da causa para uma “carroceata”, uma exposição ambulante de todos os catadores que participaram do projeto.

Financiado através de “crowndfounding”, ou seja, uma forma de comércio e mecenato, em que projetos de pessoas físicas são apresentados, bem como seus custos e apoiadores efetuam pagamentos em troca de recompensas que vão desde créditos na obra até adesivos e camisetas do projeto. A ideia inicial era de “pimpar” 50 carros de mão ao custo de R$ 38.200,00. Mas o projeto foi tão bem aceito que atingiu a soma de R$ 63.950,00 e poderá contemplar mais catadores do que o previsto.

“Fico imaginando a carroceata com centenas de catadores sorridentes, com o tanque cheio de combustível, saúde em dia e com suas carroças totalmente pimpadas com itens de segurança e com arte de qualidade. Mas meu sonho mesmo é que o “Pimp My Carroça” seja um marco histórico que servirá para questionar e mudar o descaso da sociedade em relação aos catadores e o destino de incontáveis toneladas de materiais recicláveis que desperdiçamos diariamente”, conta Mundano.

Que exemplo de convivência, de amor e zelo pelo próximo, não? E aí, vamos fazer nossa parte? Respeitar e conviver com os catadores nas ruas já é um ótimo começo.

Para quem quer ir além e saber mais do projeto para se inspirar em ideias para sua cidade ou ser voluntário do evento que acontece em São Paulo em junho é só clicar aqui.

Em tempo: segundo dados de 2010 do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, 90% de todo material que é reciclado no Brasil é coletado por catadores.

 

Fotos: Thiago Mundano.

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